A corrida começou e eu estava inteiramente perdida com todo este negócio de tentar chegar primeiro em algum lugar. Acontece que eu nunca fui muito competitiva, entende? Uma colega do colégio se matava para tirar dez em todas as matérias só para esfregar nas nossas caras que tinha o boletim mais azul da turma. Ela ficava extremamente irritada quando alguém mais tirava dez. Eu? Eu ficava feliz em deixar meus pais satisfeitos, eu nunca tirei uma nota vermelha, mas não tinha uma chuva de notas dez e não ficava enlouquecida de vontade de tirar aquele grande sorriso de vitória que minha colega tinha, como alguns colegas meus. Eu só queria ir à escola porque eu adorava e pronto. Foi por isso que comecei a correr, porque eu gostava. Só por isso.
Tá, tudo bem, eu não tinha corpo de corredora, não passava dos dois quilômetros por hora, quando comecei, mas eu gostava da sensação do suor escorrendo pelo meu corpo e de me sentir ofegante no final da corrida. Eu gostava de ver até onde eu podia ir, qual era o meu limite. Eu amava sentir cada músculo do meu corpo, me fazendo sentir mais viva. Sentir meu coração batendo mais forte e minha respiração levando oxigênio a cada célula do meu corpo. Era como se eu tivesse descoberto uma cafeína super concentrada que me deixava ligada o dia inteiro, mas permitia que eu dormisse bem á noite. Eu tinha achado um novo hábito, o de correr.
Sabe todas aquelas coisas que a gente ouve quando está correndo e não é muito magra? Sabe todas aquelas piadas horríveis que tantas vezes haviam me impedido de fazer algo? Eu nem conseguia ouvi-las, porque correr me fazia sorrir, então as piadas perderam a graça para eles, eu acho, porque nunca mais os ouvi dizendo qualquer coisa. Eu estava diferente agora, corria mais rápido, eu acho e queria correr muito mais.
A corrida fez eu conhecer meu corpo de uma forma que eu nunca havia pensado e me trouxe paz. Sei lá, toda aquela endorfina esportiva correndo nas minhas veias, fazia efeito. Um cérebro que só pensava em correr mais, o que eu buscava não estava em uma caixa, estava sob a minha pele. Não havia prêmio de miss manjericão que superasse o que eu sentia após um treino. Não havia notas que conseguiam me fazer ficar tão eufórica e ofegante. Não havia nem um homem que me fizesse suspirar como eu suspirava quando comprava aquele par de tênis delicioso ou simplesmente quando eu descobria coisas novas na RUNNER’S e fazia uma nova rotina.
Foi tudo muito rápido e a paixão foi tanta que, assim que eu tive certeza que poderia completar uma prova num tempo médio eu decidi me inscrever e fazê-la. Eu era boa? Nem tanto. Eu treinava e dava meu máximo porque era o que eu queria, o que eu amava. Eu e a corrida tínhamos um relacionamento que precisava de um próximo passo, passar para um patamar mais sério, e esse patamar era participar de uma prova decentemente. Portanto, cá estava eu me aquecendo e surtando, como noivo no altar, achando que vai dar tudo errado. Então eu vi uma figura em minha direção, os cachos inconfundíveis que balançavam quando tiravam dez. A coleguinha competitiva!
- Oi, Carla, lembra de mim? Clarinha, da quarta série…
- Como esquecer a menina do boletim azul? – Disse eu, deixando-a sem jeito.
- Hoje eu não vim mostrar minhas notas. É que você corre todo dia e passa por minha janela e eu tenho ficado muito feliz em te ver, tenho torcido por você.
- Eu não vou ganhar hoje…
- Posso te dizer uma coisa? Ganhar é bom, mas não é tudo que importa.