A Tamancada

20 20UTC março 20UTC 2011

Saudade

Filed under: Sem categoria — Tainan Pacheco @ 19:36

Eu não sabia o que era saudade até perder quem eu mais amava. Foi no começo da primavera que ela resolveu pegar a carruagem em direção ao paraíso, me deixando aqui, sozinho, sem saber o que fazer sem ela. Como apreciar as flores sem que ela cuidasse  do jardim? O que comer sem o seu tempero? Eu não sa

 

bia. Eu me encontravainteiramente perdido, como navegador sem bússola para guiar e sem vela para seguir o vento. Eu não me importava. Eu não queria mais nada. Ela era meu aconchego, meu amor, minha vida. Ela sabia o que dizer e como dizer, mas eu fiquei aqui.

Um dia sem ela. Dois dias sem ela. Três dias sem ela. Era assim que eu contava o tempo. Depois foram semanas, agora são meses. Tive que seguir em frente, como um cego sem orientação. Retirar os casacos dela do armário, as roupas, uma de cada vez, porque eu entrava em pânico a cada peça. Desarrumar o quarto, mudar a posição da cama, deixar ela ir. Não é fácil, pois até o vento que passa pelo corredor me lembra ela. Mas se era difícil ficar em casa, pior era sair e saber que o mundo continua girando sem ela. Como pode? Como é que só eu estou perdido sem ela? Porque o mundo não parou junto com ela? Provavelmente porque não a conhecia.

Se o mundo a conhecesse, provavelmente pararia. As mulheres não iriam sair, nem por uma promoção de sapatos. Os homens não iriam fazer churrascos. As criaças não brincariam pela rua. Se todos no mundo soubessem quem ela é, todas as casas teriam faixas de luto e a ONU ordenaria que se fechassem as portas, porque o mundo, sem ela, é perigoso. Nem mesmo os terroristas mais extremos, veriam graça em fazer o mundo explodir, porque não teriam ela para irritar. A Fátima Bernardes não apresentaria o JN e o Willian nem sairia da cama, se tivessem trocado algumas palavras com ela.  O mundo perderia as cores. As flores não mais teriam cheiro.

Mas o mundo não a conhece e continuou girando e tudo tinha cor e cheiro, nada mudou por falta dela, só eu. Alguns cheiros me lembravam dela, outros não. Acredita que tinha comidas que passei a comer só porque ela gostava? Pizza de alho virou meu prato das sextas. Lembrei dela quando fui fazer compras. Ela sempre dizia “Não esquece que eu gosto de embebedar o frango.” Era o código para comprar  vinho branco. Fui lembrando dela, agora sem sentir dor. Aqueles pêssegos que ela só fazia tortas, não os comprei mais, eu não sabia a receita. Mas o frango, o vinho e o suco de maçã eu não parei de comprar.

E o natal, como fica? Meus pais, os dela. Finalmente a coragem de chamá-los em casa. Achei a receita que ela queria fazer. Um tal  de chester havaiano e precisei de muita ajuda para conseguir fazer dar certo. Resultado, duas mães trabalhando comigo na cozinha, enquanto dois pais faziam os jeitos da casa. Ponche na mesa, suco de maçã, cidra gelada. O apartamento ficou cheio de gente que a amava e falamos dela. Fotos antigas, fotos novas, fotos do casamento. Muitos elogios, muita saudade. Saudade boa. Saudade do riso que faltava no meio de tantos. Claro que choramos. Mas eu não estava só. Aquelas pessoas também pararam por ela. Eu não estava sozinho. Eu podia seguir. Ano novo? Não sei. Ela queria ir á praia, então eu vou, jogar flores no mar e ver o que ela queria olhar.

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